Como a Angoalissar conduziu sua transformação digital e reinventou sua presença online (Angola, 2023–2025)

O desafio
A Angoalissar foi uma das marcas pioneiras em Angola no uso consistente das redes sociais como ferramenta estratégica de comunicação e pilar de negócios. Desde 2017, campanhas digitais, concursos culturais e uma gestão ativa de comunidade ajudaram a posicionar a empresa como referência no setor de bens de grande consumo.
Com o passar dos anos, porém, o cenário mudou. O mercado amadureceu, novas marcas surgiram com linguagem mais alinhada às plataformas e formatos como vídeos verticais, creators e narrativas mais espontâneas passaram a dominar a atenção do público.
O desafio deixou de ser “estar presente” ou “gerar engajamento” e passou a ser outro: reposicionar a Angoalissar como referência contemporânea, sem perder sua escala, credibilidade institucional e complexidade operacional. Era preciso atualizar linguagem, formatos e cultura interna, não apenas estética ou calendário editorial.

A estratégia
A transformação começou com um plano estruturado de social media, sustentado por diagnóstico, benchmarking e definição clara de personalidade, voz e objetivos. Mais do que mudar o que era publicado, foi necessário mudar como a empresa pensava o digital.
Alguns pilares estratégicos guiaram esse processo:
- Transição de uma comunicação centrada em produtos e promoções para uma narrativa baseada em pessoas, bastidores e experiências reais.
- Adoção consciente de uma linguagem mais próxima e direta, passando a tratar o consumidor na segunda pessoa (“tu”), algo incomum em comunicações corporativas de grande porte em Angola.
- Consolidação do vídeo vertical curto como formato prioritário, com conteúdos autorais, gravados nos próprios armazéns e contextos reais da operação.
- Integração entre marketing, trade marketing e criação, incentivando a captação contínua de fotos e vídeos como parte da rotina de trabalho.
- Incorporação estruturada de criadores de conteúdo, não apenas como prestadores pontuais, mas como parte do ecossistema editorial da marca.
Essa estratégia exigiu investimento não apenas em mídia, mas em infraestrutura, pessoas e mudança cultural.

A execução
A transformação editorial foi implementada de forma progressiva, mas consistente.
No plano operacional, isso incluiu:
- Aquisição de smartphones dedicados à equipa de criação e trade marketing, permitindo produção ágil de conteúdo em campo.
- Contratação de um criador de conteúdo jovem e nativo das plataformas, Hortêncio Francisco, tiktoker de 21 anos e membro do coletivo “A Casa dos Fs”, como funcionário regular da equipa de marketing. A decisão simbolizou uma mudança clara: trazer a linguagem das redes para dentro da empresa, e não apenas terceirizá-la.
- Lançamento do desafio mensal Superfã Angoalissar, reconhecendo seguidores altamente engajados com prémios físicos e visibilidade pública, fortalecendo o senso de comunidade.

- Estreia oficial da Angoalissar no TikTok e no YouTube Shorts, com conteúdos alinhados ao novo projeto editorial.
- Produção contínua de vídeos verticais autênticos, com humor, bastidores, desafios e interação direta com o público.
- Uso recorrente de influenciadores e creators em campanhas digitais, incluindo uma grande operação de Black Friday com 20 influenciadores e 32 vídeos produzidos.
- Integração entre digital e offline, com campanhas online desdobradas em ativações físicas, entregas de prémios, eventos e ações de trade marketing.
- Produção de jingles e spots de rádio para suporte às campanhas digitais, recorrendo a ferramentas de IA para otimizar custos sem comprometer qualidade.
Mais do que executar campanhas, o trabalho envolveu orquestrar um sistema editorial, onde marcas, pessoas, criadores e canais dialogavam entre si de forma coerente.
@angoalissar 🎬 Mandamos um áudio explicando para a equipa como queríamos o vídeo… e ela seguiu cada palavra. Literalmente… 😂 Esperávamos um vídeo simples para as redes sociais, recebemos uma verdadeira obra de arte… 🖼️ Trabalhar com gente criativa é ótimo, mas às vezes eles levam tudo ao pé da letra 🤣🤣🤣 Dá o play e conta- nos: a equipa errou ou acertou demais? 👀 #Angoalissar #Armazém #Compras #Meme
♬ som original – Angoalissar Angola – Angoalissar Angola
Conteúdo gravado no armazém de Terra Nova, reforçando a consistência da narrativa mesmo em diferentes espaços físicos da marca.
O resultado
Ao longo de 2023, 2024 e especialmente em 2025, a Angoalissar passou a apresentar sinais claros de reposicionamento digital, com crescimento consistente de alcance, interação e comunidade nas principais plataformas.
Conteúdos deixaram de ser consumidos apenas como informação protocolar e passaram a ser comentados, partilhados e discutidos também fora das plataformas, em reuniões, no chão de fábrica e até nos intervalos para o café. Em 2025, esse novo posicionamento se traduziu em milhões de visualizações anuais e centenas de milhares de interações orgânicas, mesmo sem dependência de grandes investimentos em mídia.
Projetos como o Superfã Angoalissar demonstraram crescimento expressivo da comunidade ativa, com o número de seguidores reconhecidos pela plataforma saltando de dezenas para centenas ao longo do período. A entrada no TikTok, lançada no final de 2024, rapidamente alcançou centenas de milhares de visualizações já no primeiro ano, abrindo acesso a uma audiência mais jovem e menos saturada. Em paralelo, campanhas com influenciadores ampliaram o alcance de forma pontual e estratégica, como na Black Friday, com mais de 2,5 milhões de visualizações em conteúdos de creators, sem descaracterizar o tom editorial da marca.
Mais importante do que números isolados, a Angoalissar voltou a ser percebida como marca viva, com personalidade, humor, capacidade de autoironia e conexão cultural com o público angolano.

O que aprendi
- As pessoas ignoram propaganda tradicional nas redes sociais com extrema facilidade.
- Conteúdo autêntico, mesmo tecnicamente imperfeito, tende a superar artes impecáveis e mensagens corporativas genéricas.
- Humor, vulnerabilidade e reconhecimento público geram mais vínculo do que discursos institucionais.
Retrospectiva de vídeos publicados pela Angoalissar em 2025, consolidando a mudança de linguagem e frequência no digital.
- Em Angola, ser reconhecido por uma marca gera status simbólico e orgulho social.
- Influenciadores funcionam melhor quando integrados a uma lógica editorial clara, não como atalhos de alcance.
- Transformação digital real exige mudança cultural interna, não apenas novos formatos.

Como explico esse case num bar
Costumo dizer que a Angoalissar parou de tentar parecer uma grande empresa moderna e passou a agir como uma marca feita por pessoas reais. Assumimos que ninguém acorda com vontade de ver propaganda no feed e começamos a disputar atenção com conteúdo que fosse, no mínimo, interessante de verdade.
O momento em que colocamos o Diretor Geral mastigando um cookie num vídeo, ou quando ele passou a indicar um criador jovem da equipa para dar entrevistas à rádio e à televisão, simboliza bem essa virada. A empresa deixou de ter o rosto de um gestor estrangeiro de meia-idade e passou a ter a cara de um angolano jovem, carismático e conectado à cultura local.

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